as palavras da irmã.
- Ela diz que nosso pai conspirou para cometer traição com os
irmãos do rei - lera. - O Rei Robert está morto, e a mãe e eu
somos convocados à Fortaleza Real para jurar fidelidade
ajoffrey. Diz que devemos ser leais e que, quando casar com
Joffrey, suplicará a ele que poupe a vida do senhor nosso pai -
seus dedos fecharam-se em punho, esmagando a carta de
Sansa. - E nada diz de Arya, nada, nem uma única palavra.
Maldita seja! Que se passa com ela?
Bran sentira-se completamente frio por dentro.
- Perdeu seu lobo - ele respondeu, a voz fraca, recordando o
dia em que quatro dos guardas do pai tinham regressado do
sul com os ossos de Lady. Verão, Vento Cinzento e Cão
Felpudo tinham começado a uivar antes de eles atravessarem
a ponte levadiça, com sons arrastados e desolados. A sombra
da Primeira Torre ficava um antigo cemitério, com as lajes
semeadas de liquens, onde os antigos Reis do Inverno tinham
enterrado seus criados fiéis. Lady fora enterrada ali, enquanto
os irmãos caminhavam por entre as tumbas como sombras
inquietas. Partira para o sul, mas só os ossos tinham
regressado.
O avô, o velho Lorde Rickard, também partira, com o filho
Brandon, que era irmão do seu pai, e duzentos de seus
melhores homens, Nenhum regressara. E o pai fora para o sul,
com Arya e Sansa, e Jory, Hullen, Gordo Tom e os outros, e
mais tarde a mãe e Sor Rodrik tinham partido, e eles também
não tinham regressado. E agora era Robb quem queria partir.
Não para Porto Real, e não para jurar fidelidade, mas para
Correrrio, com uma espada na mão. E se o senhor pai de
ambos fosse de fato prisioneiro, isso significaria com certeza a
sua morte. Assustava Bran mais do que era capaz de
exprimir.
- Se Robb tem de ir, olhem por ele - suplicou Bran aos deuses
antigos enquanto o observavam com os olhos vermelhos da
árvore-coração -, e olhem pelos seus homens, por Hal, Quent e
os outros, e por Lorde Umber, pela Senhora Mormont e pelos
outros senhores. E também por Theon, acho. Observem e os
mantenham a salvo, se vos agradar, deuses. Ajudem-nos a
derrotar os Lannister e a salvar meu pai, e a trazê-lo para
casa.
Um leve vento suspirou pelo bosque sagrado e as folhas
vermelhas agitaram-se e sussurraram. Verão mostrou os
dentes.
- Pode ouvi-los, rapaz? - perguntou uma voz.
Bran ergueu a cabeça. Osha estava em pé do outro lado da
lagoa, sob um antigo carvalho, com o rosto obscurecido por
folhas. Mesmo presa a grilhões, a selvagem movia-se
silenciosamente como uma gata. Veráo deu a volta na lagoa e
a farejou. A mulher alta vacilou.
- Verão, a mim - chamou Bran. O lobo selvagem fungou uma
última vez, girou sobre si mesmo e voltou. Bran enrolou os
braços nele. - Que faz aqui? - não tinha visto Osha desde a sua
captura na Mata de Lobos, embora soubesse que a tinham
posto para trabalhar nas cozinhas.
- Também são os meus deuses - Osha disse. - Para lá da
Muralha, são os únicos deuses - os cabelos estavam crescendo,
castanhos e desgrenhados. Faziam-na parecer mais feminina,
isto e o vestido simples de ráfia marrom que lhe tinham dado
quando lhe tiraram a cota de malha e a roupa de couro. -
Gage deixa-me orar de vez em quando, quando sinto falta, e
eu o deixo fazer o que quiser debaixo da minha saia quando
sente falta. Para mim não significa nada. Gosto do cheiro da
farinha em suas mãos, e é mais gentil que o Stiv - fez uma
reverência desajeitada. - Vou deixá-lo só. Há panelas que
precisam ser esfregadas.
- Não, fique - ordenou-lhe Bran. - Explique-me o que queria
dizer com ouvir os deuses. Osha o estudou.
- Você fez um pedido e eles estão respondendo. Abra os
ouvidos, escute, e ouvirá. Bran escutou.
- É só o vento - disse após um momento, inseguro. - As folhas
estão batendo.
- Quem você pensa que envia o vento, se não os deuses? - ela
sentou do outro lado da lagoa, tilintando levemente enquanto
se movia. Mikken prendera grilhetas de ferro em seus
tornozelos, com uma corrente pesada entre elas; podia
caminhar, desde que mantivesse os passos pequenos, mas não
havia chance de correr, de subir ou de montar um cavalo. -
Eles o veem, rapaz. Ouvem--no falar. Esse bater? Isso são eles
respondendo.
- Que estão dizendo?
- Estão tristes. O senhor seu irmão não terá sua ajuda no
lugar para onde vai. Os velhos deuses não têm poder no Sul.
Lá, os represeiros foram todos derrubados há milhares de
anos. Como poderiam vigiar seu irmão se não têm olhos?
Bran não tinha pensado naquilo. E ficou assustado. Se nem
mesmo os deuses podiam ajudar o irmão, que esperança
havia? Talvez Osha não estivesse ouvindo corretamente.
Inclinou a cabeça e tentou escutar de novo. Julgou conseguir
ouvir agora a tristeza, mas nada além disso.
O bater das folhas tornou-se mais sonoro. Bran ouviu passos
abafados e um cantarolar em voz baixa, e Hodor saiu
desajeitadamente por entre as árvores, sorrindo e nu.
- Hodor!
- Deve ter ouvido as nossas vozes - disse Bran. - Hodor,
esqueceu a roupa.
- Hodor - o gigante concordou. Estava encharcado do pescoço
para baixo, fumegando no ar gelado